Muito se disse e se escreveu - não sem polémica - sobre o estilo manuelino, desde que esta noção foi inventada, em 1842. Curiosamente, foi apenas na década passada que se manifestou a preocupação de saber o que pensavam da arte manuelina os seus contemporâneos.
Nos documentos da época, regista-se a consciência de duas grandes linguagens arquitectónicas: o "modo de Inglaterra" a que hoje chamamos "gótico final" e o "modo das Espanhas" que corresponde a um conjunto de soluções de origem mediterrânica e norte-europeia, nacionalizadas nas diversas regiões ibéricas através dos estilos actualmente designados por hispano-flamengo, isabelino e plateresco, em Espanha, e naturalmente por manuelino, em Portugal. A todas estas tendências ibéricas é comum a herança arquitectónica islâmica, reabilitada a partir do século XIV pelas soluções correntemente designadas de mudéjares. Comum também é a multiplicidade de fontes artísticas que informa toda a arquitectura "ao modo das Espanhas", consubstanciando-se em sistemas decorativos regionalizados que, nos casos mais inovadores, se aplicam a edifícios de estrutura e de espacialidade derivadas das soluções do gótico internacional: espaços amplos e luminosos, cobertos por abóbadas de traçado complexo e de perfil baixo, que podem recordar com frequência as igrejas-salão do norte da Europa.
Os documentos escritos quinhentistas vão mais longe, opondo arquitectura "ao moderno", também designada por obra "ao modo da Alemanha", a arquitectura "ao romano" ou "ao antigo", isto é, aquela que seguia o modelo clássico das ordens, cujo horizonte de concretização continuava a ser sobretudo Itália. A instalação sistemática dos cânones artísticos classizantes, na Península Ibérica, foi um fenómeno retardado por múltiplas resistências, explicáveis pelo facto de os grandes encomendantes da Igreja e da nobreza terem encontrado nas diversas linguagens da obra "ao moderno" um veículo de ideologia social mais favorável.
No século XX, ainda antes de ter sido revelada a imagem que da arte manuelina tinham os seus próprios contemporâneos, coube ao historiador da arte Paul Evin o grande mérito de relacionar alguns temas dessa arte com motivos comparáveis da arte germânica de finais de Quatrocentos e de princípios da centúria de Quinhentos. A mais notável comparação diz respeito ao uso de troncos podados, muito frequente aliás na igreja de Tomar, conhecido nos territórios alemães por Astwerk, circunstância que, aliás, motivaria Rafael a dissertar sobre a origem naturalista do gótico, numa célebre carta que escreveu ao papa Leão X.
Assim, a arquitectura "ao modo das Espanhas" e, por consequência, a arquitectura manuelina assume-se como inovadora obra "ao moderno". Esta convicta originalidade é uma realidade verificável nas obras maiores - como é o caso da igreja do Convento de Cristo -, originalidade essa que não pode ser negada pela circunstância de nascer da confluência de tendências artísticas da mais diversa procedência, nem explicada globalmente como resultado directo das viagens de descobrimento e do novo conhecimento de paragens exóticas. A tão justamente famosa janela do Convento de Cristo, assim como todo o conjunto arquitectónico da igreja a que indissociavelmente pertence, é alimentada, nos seus múltiplos sentidos, pela atmosfera de autoconfiança vivida durante o reinado de D. Manuel, inspirada, em grande medida, por sua vez, pela ambição de domínio territorial alargado à escala mundial, a legitimar ao nível das crenças extraterrenas, ressuscitando os ideais de cavalaria e anunciando a Jerusalém Celeste.